Entrevista

…gosto de pensar no espaço como uma história onde há elementos dinâmicos.

Há quanto tempo está ligado ao mundo da decoração e como se interessou pela área?

Depois de ter terminado a licenciatura, em 2000, comecei a trabalhar numa produtora cinematográfica. Em paralelo, surgiu a oportunidade de fazer algumas telas infantis para a loja de uma amiga. Os clientes gostaram e começaram a pedir outros artigos com os mesmos motivos: puxadores, candeeiros, roupa de cama… A vontade de me dedicar a tempo inteiro a esta área foi cada vez maior. E foi assim que, em 2001, nasceu a marca, num pequeno atelier, onde fazia as peças que revendia a lojas multimarca. Em 2004, após ter participado na Feira de Artesanato do Estoril e sondado os clientes que por lá passaram, arrisquei a abertura de um showroom em Telheiras. Mais tarde, em 2005, abri a loja de Campo de Ourique. No fundo, é uma empresa que se foi construindo aos poucos, ao ritmo ditado pelos clientes e as suas necessidades.

Quais são, para si, os aspetos mais importantes de uma decoração?

Como trabalho com decoração infantil, há vários aspetos, específicos deste tipo de decoração, que valorizo especialmente.

A segurança dos artigos e matérias-primas, claro, é uma delas.

Também valorizo bastante o espaço deixado livre para as brincadeiras. As crianças precisam de se movimentar à vontade para darem largas à imaginação. A forma como os móveis são distribuídos ou mesmo a opção por móveis que integrem várias funções (camas com gavetão, estantes com secretária), podem ajudar nesta tarefa.

As cores também são essenciais. Um ambiente alegre, divertido, com cores vivas, mas sem serem berrantes, promovem espaços luminosos e acolhedores, onde a criança se sente bem.

Uma vez que trabalhamos de forma personalizada, os quartos que fazemos vão de encontro aos gostos específicos de cada criança em particular. Este é um aspeto que valorizo em particular, uma vez que cada criança é um caso e o quarto deve ser o seu mundo.

Onde procura inspiração para a realização dos seus projetos decorativos?

A inspiração vem das próprias crianças a quem se destinam. Os seus gostos, preferências, sonhos… Muitas vezes, as suas ideias chegam mesmo a inspirar-nos para as nossas coleções! As outras influências vêm de livros e ilustrações, filmes, um cartaz por que se passa, ou uma música que se ouve…

Fale-nos um pouco do seu processo criativo?

Poder contactar diretamente com os clientes ou com as crianças, quando já têm idade para explicar as suas preferências, é uma grande ajuda para começar a trabalhar num projeto.

Nem sempre é possível deslocarmo-nos aos locais, mas, com a ajuda de uma planta e fotos, conseguimos idealizar o espaço como se lá tivéssemos estado.

O restante processo assemelha-se ao que realizo quando penso numa coleção. Tenho dossiers de recortes e pastas no computador com ideias. Também vou apontando num caderno outras que me surgem em determinado momento. Coleciono padrões que tanto podem vir da capa de um livro, como de uma fotografia ou de um tecido.

Quando chega a hora de criar algo de concreto, é mais fácil recorrer a esta “base de dados”. Outras vezes, algo que vejo ou de que me lembro surge logo na forma de um artigo em concreto.

E como é que se desenrola o processo de trabalho, desde o momento em que é contactado pelo cliente até terminar o projeto decorativo?

Quando o cliente nos contacta, normalmente pretende sondar preços e serviços. Apresentamos alguns exemplos e explicamos que poderá recorrer a um projeto 3D ou optar apenas pelo orçamento (gratuito), que é sempre acompanhado pela ajuda e aconselhamento de um dos nossos colaboradores.

A proposta apresentada ao cliente pode ser alterada quantas vezes for necessário, de forma a ficar de acordo com o que idealizou.

Após a aprovação final, a encomenda é feita ao nosso atelier e distribuída pelos respetivos fornecedores. Recebemos os artigos em bruto e transformarmo-los caso a caso, com as cores e acabamentos que o cliente escolheu.

Assim que a encomenda estiver finalizada, o cliente é contactado.

Não temos um serviço de transportes próprio, mas recomendamos uma empresa com que trabalhamos e que deixa o quarto totalmente montado.

Porém, o cliente poderá optar por outro meio de entrega.

Prefere particularmente um estilo de decoração ou trabalha com vários?

Pessoalmente gosto de um estilo depurado, com linhas direitas e um ar clean. Gosto de cores, mas como apontamento, sobre estruturas brancas. E valorizo muito a luz. No entanto, trabalho com outros estilos e até considero um desafio adaptar o meu estilo habitual aos gostos dos clientes.

No geral, com que estilo de decoração se identifica mais?

Com um estilo luminoso, alegre, mas não demasiado saturado. Gosto de desenhos e padrões, mas não em demasia. Apenas como apontamentos. No entanto, não sou muito adepta do minimalismo, que se pode tornar demasiado desconfortável e frio. Gosto também de colocar alguns pormenores divertidos, que aproveitem recantos que, à partida, não costumam ser utilizados: carrinhos a descerem uma ombreira da porta, uma girafa a espreitar atrás de um móvel…

Qual é o espaço da casa que mais gosta de decorar e porquê?

Como trabalho com decoração infantil, os espaços que mais decoramos são os quartos, casas de banho e quartos de brincar ou de estudo. Qualquer um destes quartos pode ser um desafio e não tenho preferência especial por nenhum deles. Gosto acima de tudo quando um cliente nos deixa alguma liberdade, ou surge com ideias diferentes do habitual.

O que está in e o que está out em termos de decoração?

Não sou muito a favor de catalogar a decoração desse modo. Acho que tudo é aceitável, desde que devidamente coordenado e, acima de tudo, desde que o destinatário do espaço se sinta lá bem.

No entanto, há tendências que se vêm a verificar na decoração infantil.

Os tais móveis que referi em cima, que permitem conjugar várias funções (dormir e arrumar, arrumar e estudar, etc.) e que ajudam a maximizar o espaço livre, são cada vez mais procurados.

Há uns anos, também notava que os clientes optavam por móveis muito coloridos. Hoje em dia preferem as bases brancas e a cor apenas em gavetas ou prateleiras.

Também há uma maior tendência para escolherem a pintura lisa e aplicarem os bonecos nos puxadores, almofadas, candeeiros, etc., em artigos que, mais tarde, poderão trocar, com maior facilidade.

No entanto, não significa que não apareçam clientes a procurar estilos diferentes e que costumam resultar igualmente bem.

Qual é a sua imagem de marca, ou seja, existe alguma cor, detalhe ou peça que utilize sempre nas suas decorações?

Em relação à pintura, costumo sugerir a estrutura branca, com cores distribuídas pelas gavetas, prateleiras, acessórios, …

Gosto de ver alguns bonecos colocados como se fosse de forma aleatória num determinado móvel: uma joaninha que pousou num tampo de uma cómoda, ou um menino a trepar a lateral de um móvel.

No fundo, gosto de pensar no espaço como uma história onde há elementos dinâmicos.

Há também dois tipos de artigos que comecei a fazer logo de início e continuo a recomendar: os painéis de parede em detrimento das pinturas (são móveis, laváveis e permitem efeitos muito engraçados) e as bolachas para aplicar em móveis e paredes.

Valorizo especialmente estes dois artigos, porque permitem criar apontamentos originais, sem obrigar a uma decoração infantil definitiva.